quinta-feira, 25 de junho de 2009

A maravilha do momento.

Ando maravilhada. E passo a explicar: de quando em vez espreito os meus livrinhos mais velhinhos porque gosto de voltar a descobrir alguns títulos a que não posso ter dado a atenção devida quando o li.
E, porque estamos sempre em evolução pessoal, tenho notado que há livros que não me disseram muito e que, quando os volto a ler, apaixono-me perdidamente por eles (sim, eu apaixono-me por livros) :)
E ando maravilhada com "Os Maias"! Tive que ler a obra há uns anos, na disciplina de Português e na altura tinha acabado de me apaixonar pela "Aparição", portanto não lhe dei a devida atenção, não o devo ter lido com "olhos de ler", devo-me ter cingido à mera analise cientifica da obra;( (o que, na minha opinião "corta-nos" muito a dimensão mais profunda da obra, o que realmente nos faz apaixonar por um livro!).
O Eça era mesmo um génio!, tão acutilante, e tão actual que até arrepia!
Estou mesmo viciada no livro, tanto que qualquer minuto que tenha lá vou ler umas páginas!
Não há palavras, eu sempre foi meio que fascinada para o século XIX, aquela arquitectura, o meio fervoroso da época, todo um mundo novo de revoluções sociais e mentais, mas lendo o Eça só me dá vontade de entrar pelo livro dentro e, sorrateiramente, embrenhar-me no enredo!:)
E aqui vão dois trechos, dos quais gostei particularmente.

"- Enfim- exclamou Ega- se não aparecerem mulheres, importam-se, que é em Portugal para tudo recurso natural. Aqui importa-se tudo. leis, ideias, filosofias, teorias, assuntos, estéticas, ciências, estilos, indústrias, modas, maneiras, pilhérias, tudo nos vem em caixotes pelo paquete. A civilização custa-nos caríssima, com os direitos da Alfândega: e é em segunda mão, não foi feita para nós, fica-nos curta nas mangas..."

"- Imagina tu, carlos amigo, a história deliciosa que me sucede com minha mãe... depois de Coimbra, naturalmente, sondei-a a respeito de vir viver para Lisboa, confortávelmente, com uns dinheiros largos. Qual, não caiu! Fiquei na quinta, fazendo epigramas ao padre Serafim e a toda a Corte do Céu. Chega Julho, e aparece nos arredores uma epidemia de anginas. Um horror, creio que vocês lhe chamam diftéricas... A mamã salta imediatamente à conclusão que é a minha presença, a preseça do ateu, do demagogo, sem jejuns e sem missa, que ofendeu Nosso Senhor e atraiu o flagelo. Minha irmã concorda. Consultam o psdre Serafim. O homem, que não gosta de me ver na quinta, diz que é possivel que haja indignação do senhor- e minha mãe vem pedir-me, quase de joelhos, com a bolsa aberta, que venha para Lisboa, que a arruíne, mas que não esteja ali chamando a ira divina. No dia seguinte bati para a Foz..."


2 comentários:

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Nao te fica a sensaçao de que hoje ja é tao dificil uma leitura a la Eça ou a la Camilo? Porque nao temos tempo interior.

Curiosamente aconteceu-me um episodio semelhante mas foi ha mais tempo e com "O Mandarim"...

Sofá Amarelo disse...

Também já voltei a ler o Eça várias vezes, é periódico. E de cada vez que volto aos livros dele mais me parece que é um escritor /sociólogo contemporâneo, dos nossos dias, parece até que nada mudou do Portugal daqueles tempos para o de agora, a não ser os objectos... porque as pessoas continuam as mesmas, é impressionante a visão de génio que o Eça conseguiu ter naquela altura - tenho a certeza que seria ele o prémio Nobel português se vivesse agora.

Muitos beijinhos. Bom fim-de-semana!!